Essa gente negligente.
Postado em 26/09/2007 - 23:00
Menino de remela no olho encosta no vidro para pedir. Nem dez centavos? A mãe está logo ali, sentada na grama com dois no peito, procurando leite e achando nada. Vem outro oferecer bala de café, que nunca matou, nunca roubou, tem três filhos e mulher desempregada. Corre entre carros, escarra na cara do asfalto. E o outro, ali, demente de sol quente. Mal anda, mal fala. Tem força só no braço, para esticar e pedir. O cachorro nem se lambe, que é de nojo. A rua suja que ele mora tem gosto de esgoto. Que é por onde vão os dejetos de quem nem come e, quando come, é papa de arroz de duas semanas na panela, feita pela menina de doze que cuida de outra de quatro e dois de dois, gêmeos. Iguais na fome, os desiguais. Filhos da que senta na grama, que sente na pele, que dá peito para enganar. Falta leite. Falta arroz na panela. Falta água para curar o calor do demente. Falta emprego para que não sabe de nada, não estudou porque escola não tem. Falta escola por quê? Nem dez centavos. Tenho não. Passa a mão no olho, mas não limpa a remela. Era só para esconder a vergonha. De mim, que estou de cara limpa.
Foi bom quando morri.
Postado em 23/09/2007 - 22:35
Da beira do precipício, olhei.
O abismo era albino.
Uma vasta cegueira branca, tal qual o Escritor já o havia descrito.
Uma imensidão incandescente.
Um horizonte ao revés.
Era completamente incompleto, o abismo.
E dali saltei.
Prometo.
Postado em 23/09/2007 - 22:30
Nunca mais te olharei. Nem mesmo com aqueles olhares que eu sabia que vias e fingia estar fazendo escondido. Não mais tentarei sentir o cheiro da tua nuca. Se queres saber, quando eu te tocar, daqui em diante, será apenas para te tocar. Antes, era para trocar. A troca do amor que eu tinha, pelo que me davas. Se creio? Sim, ainda. Mas agora creio só para mim. A partir do hoje, passo a não ver o amanhã. Vou tratá-lo como um desconhecido, um rosto perdido numa multidão urbana, alguém a quem nunca fui apresentado, com quem nunca poderia ter sonhado.
Prometo te deixar em paz.
Mas não sem antes fazê-lo comigo mesmo.
Sucinto.
Postado em 23/09/2007 - 22:18
Entre citar ou recitar, prefiro incitar.
Desperto: perto ao contrário.
Postado em 23/09/2007 - 21:18
Acordar sem ela é ter um pesadelo.
O comedor.
Postado em 21/09/2007 - 11:53
Raspou o último osso esfregando vorazmente nos dentes da frente. Serrou as lascas de carne nobre que sobravam e esfregou as costas da mão na boca, escondendo o sorriso que lhe escapulia.
...
Desde menino tinha disso, que a mãe Aurora tinha fé que era coisa do satanás. Deu água de benzer, levou o menino para batizar três vezes, entregou o corpo do pobre até a um pai-de-santo em Nazaré do Bruno. Rezou missa de despedida e tudo. Não entendia e foi envelhecendo enquanto ele virava rapaz e continuava daquele mesmo jeito.
Ele comia castigos. Os devorava.
Era cidade pequena, aquela, a dele. Ficava entre dois morros altíssimos, que nem nuvem atravessava. E foi nessa falta do que olhar, a não ser para o céu, já que montanha enjoa, que ele começou a olhar ao redor. E viu coisas estranhas.
Mulher culpando o marido. Mãe xingando filho. Avô esquecido por neto. E no meio de tanta culpa, tanto desassossego, resolveu devorar aquela coisa feia, o castigo.
Comeu todos os castigos entre as montanhas que cercavam seus horizontes. E a mãe, coitada e culpada, achando que tinha criado um monstro, escondeu-se na igreja, rezando e chorando, querendo se castigar. Teve sua penitência engolida pelo filho, que achava uma delícia digerir a dor alheia. E nunca vomitou. E nunca nauseou.
Comeu os castigos da pequena humanidade que vivia ali. Que foi feliz. Que passou a olhar mais para o céu. Que nem ele.