Você e esse seu machismo.
Postado em 27/06/2007 - 18:47
– Puta que o pariu. Tinha nada que fazer uma merda dessas justo no
aniversário de casamento da gente. E ainda me vem com esse horror
embrulhado num papel de terceira, essa caixa comprada numa papelaria
de shopping. Um pedido de desculpas póstumo, é isso? Póstumo, sim.
Você morreu. A gente morreu. E não tem nada que possa fazer
renascer. Aniversário de casamento da gente. Três anos. E a novidade
que me aparece em cima do bolo é essa porra dessa notícia. Que, claro,
fico sabendo pelas outras pessoas. Você é idiota a ponto de achar o
quê? Que eu nunca saberia? Puta merda. Puta merda. Puta merda.
Canalhice, isso. Vacilo, não. Mau caratismo. Logo hoje, Cláudia?
Perdi a mão.
Postado em 26/06/2007 - 00:23
Mas o que sei, e só eu o sei, digo-lhes convicto, é que tenho perdido a
mão, cada dia, cada linha, cada parágrafo que me passa e não agarro. É
sentir-me escorrer pelos dedos as palavras mais tolas que possam
haver, tal qual houvera, frondosa e nódoa. Desisti das cartas de amor,
dessas desisti, minha última arma com as mulheres que ainda não amei
– são poucas – e que por acaso do destino ou ocaso meu tornaram-se
distantes como bustos em praça pública, memórias mortas de um tempo
que não voltará enquanto não se reinicie o ciclo das vidas. Sim, porque
o que me sobra hoje, enquanto falo pela última vez, continua sendo meu
pensamento recorrente de que um dia o relógio voltará ao ponteiro
original. Eis minha chance de recomeçar – mas desta vez, aviso de
pronto a Luzia, Júlia e Virgínia, as três irmãs que me faltam beijar dentre
as poucas sobre as quais me referi há pouco, que começarei por elas,
talvez ainda na infância, talvez com beijos roubados no corredor da
escola, na parada da bicicleta antes de pedalar um pouco mais, na
queda proposital do galho da goiabeira.
Ah, se na volta dos ponteiros ao recomeço não houver a goiabeira no
quintal. Me arrependeria de renascer. Choraria todos os meus dias em
saudade da sombra que não verei em vida nova que me será dada. E
beijos não darei. Não sem aquela sombra.
Pois então, caros, despeço-me desta em aguardo a que virá. Aceno com
apenas uma delas. Que a outra mão, reconheço, a perdi. E não será
ainda nesta vida que a reencontrarei.
Até a volta. Sem que o líquido febril dos meus amores escorram-me
pelos dedos, como palavras que voam secas, da minha goiabeira do
quintal.
Depois que eu fizer esse samba.
Postado em 25/06/2007 - 18:03
Depois que eu fizer esse samba
eu sei
consigo o teu perdão
Porque minha preta
duvidei
não soube se do lado de lá
do muro em frente ao barraco que moras
morava
o sim ou o não
Depois que cantar esse samba
terei
um tamborim pra tocar
Porque à noite no morro
é fria
e de colo eu vou precisar
Do teu colo eu vou
Eu vou precisar
Perdoa
Vai, perdoa
malandro que não pensa
antes de falar
Perdoa
Vai, perdoa
que eu fiz esse samba
só
só
só pra me desculpar
{Tem os lados bons. A caminho do aeroporto, histórias sobre Herivelto,
Pereira, Keti, Cartola. E composições feitas pela janela do táxi em
movimento, vendo a cidade passar. E a cabeça não crê no que vê. E
imagina que ali é outro lugar, um largo carioca qualquer. Qualquer que
seja, desde que se possa ajoelhar e ser perdoado pela preta
imaginária.}
Guerra nas Esteiras – Episódio 1
Postado em 25/06/2007 - 01:23
Yoda Bensoussan e Pedrinho Skywalker se aproximam do Aeroporto
Internacional de Cumbica para mais uma missão que tem como objetivo
salvar o universo dos poderosos Descontrolators. Foram armados até os
dentes. Pelo menos aqueles que haviam sobrado da noite anterior, no
IDCH (www.idch.art.br, acreditem: à noite, vira uma boate com música
indiana tocada ao vivo por uma banda que, só de barba, tem oito
metros).
Yoda Bensoussan, primo da Princesa Léia Castro e Silva, tem na sua
linhagem a paciência e a ponderação como gen predominante. O
pedigree de um verdadeiro professor de todas as artes. Salve, Yoda,
mestre dos mestres.
Pedrinho Skywalker e seu sabre Miller Genuine Draft, brilhando,
acompanha com os olhos a paisagem do outro Miller, o Frank, se
afastando no horizonte enquanto dirige-se a formosa Guarulhos, cidade
bela, quase um Rio de Janeiro depois de um ataque nuclear.
Os dois não faziam idéia do poder de fogo do inimigo.
O piloto da nave-táxi, Capitão Ayrton Solo, adverte:
– Parece que o negócio aí tá fogo, meu.
Yoda e Skywalker não entendem. Meu? Qual dos dois ele queria para si?
Entram na casinha de aviões e entendem. Não a parte do "meu", mas a
parte do "fogo". Um incêndio acontecia em pleno ambiente. Quanto riso,
ó, quanta alegria, mais de mil palhaços no saguão – tocava na rádio
interna. Os dois se olham. Fodeu. Pensaram poeticamente. Realmente
fodera, escrevendo liricamente. Repórteres globais da Rede Globo e de
outras emissoras davam notícias equivocadas e tentavam culpar o
presidente Darth Inácio Vader da Silva. Não, terráqueo. A culpa não era
dele. Não daquilo. Era mais uma armação dos Descontrolators, o bando
do mal que veste capa preta e usa PC's em sistema DOS.
Os mestres sacaram seus sabres laranjas brilhantes e partiram para
cima do inimigo, mas não contaram com o escudo na parede: A
INFRAERO INFORMA – É PROIBIDO FUMAR EM TODA ESTA ÁREA.
Pedrinho Skywalker pensou em beber seu primo, o Johnny. Não havia.
Yoda coçou a cabeça na parte superior – e lisa – confirmando a sua
apreensão e sua calvície. Tinha uma viagem para a Galáxia de Bielorus
na segunda e não poderia perder.
Mas os golpes que aprenderam ao longo de milênios de imortal história
serviram de algo. Desferiram palavras duras, furaram filas, cochilaram
em cadeiras de plástico, fumaram na cara da moça da Tam, que já
havia participado dessa série anteriormente, fazendo o papel de
Chewbacca – se não fora ela, uma irmã gêmea, de certo.
Certo foi que, ao fim da dura e sangrenta batalha, em aeronaves
distintas partiram os Jedis Levianos rumo ao quartel recifense.
Machucados, verdade. Mas não sem antes golpear Descontrolators
mortalmente.
A saga parecia não ter fim, seja dito. Mas jedi que é jedi decola. Nem
que seja de Gol, senhores passageiros.
Sabes?
Postado em 19/06/2007 - 15:03
No que podes
deves
ousas confiar?
Que aquilo que escutas
vês
tocas nem sempre diz o que é?
Firme.
Postado em 19/06/2007 - 14:54
– Assine aqui, por favor. Sobre esta linha.
Ao sair, Pedro olhou para trás. Última vez que o faria. Caminhou passos
indecisos pela calçada e cruzou a rua de barro com um pouco mais de
convicção. E, ao menor sinal de tempo passado, deu-se conta de que a
linha por onde havia deixado sua firma eram os trilhos do seu trem da
vida.