Enquete # 18.366: ENTROPIA.
Postado em 31/05/2007 - 10:29
Digo logo que a fonte de inspiração para esta enquete fantástica foi meu
amigo e companheiro de cela aqui na agência, Thiago Mello.
O fato deu-se anteontem, quando eu, distraidamente, coloquei na vitrola
do meu I-Tunes a música Sonnet, do The Verve. A sala silenciou, alguns
baixaram as cabeças, outros levitaram, uns apenas choraram.
Chegamos à conclusão, em conjunto, que há músicas que provocam
entropia: fazem casais se beijarem, mulheres se estapearem, homens
pularem para fora do armário, ursos pularem para fora do guarda-
roupa, velhinhas desejarem seus velhos lambendo os lábios, crianças
histerizarem, namorados romperem, cachorros latirem, enfim.
E eis que Thiago manda-me um e-mail sugerindo o tema desta enquete:
QUE MÚSICA, PARA VOCÊ, PROVOCA ENTROPIA, CAOS, DESORDEM,
MEXE COM OS BRIOS?
Aguardo os posts, ouvindo Sonnet.
Beijos.
P.
Fogo nas rebeldes.
Postado em 29/05/2007 - 17:04
Elas estavam eufóricas. Pulavam, remexiam, esfregavam. E isso tudo
saltitando, como se quisessem fugir da hermética cela de ferro. Mais
remexidos, sussurros, até que a rebelião pareceu ter seu estopim.
Pequenos estrondos, estampidos abafados, mais tentativas de fuga.
Logo, achei que elas tivessem dado uma trégua. Mas não. Ainda soavam
alguns sinais de rebelião.
Até que, enfim, cessaram.
Servi com sal. E tirei o milho que me ficou entre os dentes fazendo
malabarismos linguais. Ou lingüísticos?
Meu caro amigo Giba.
Postado em 24/05/2007 - 12:42
Giba,
você tinha razão. Sempre teve. Recordo bem quando das suas
experiências com as belas negras e mesmos os negros – de mim nada
escondias. E de cada história narrada, via teu semblante de desbravador
dos canaviais, um erudito de posse de uma estrovenga afiada que
penetrava as essências dos dominadores e dos dominados. Lembro-me
das tuas descrições do que era limpo, grandioso e reluzia como ouro.
Lembro-me das tuas descrições do que era imundície, celas com piso de
merda e perfume de esgoto. Você tinha razão. A herança estaria
disponível anos depois, talvez séculos, disfarçada com alguma fantasia
medonha e indiscreta. Sei que não houve tempo para que você visse o
que profetizara. Mas aqui estou e te conto. É minha hora de narrar.
Caro amigo, tudo continua como sempre fora. A indivisível e visível
crueldade dos abismos humanos que habitam as duas casas da nossa
terra. Lá na frente, agora, são quase arranha-céus, mosaicos de mau
gosto e ostentação, chapas de aço que sobem e descem para abrir
portões menores, mas não menos imponentes.
{Sabes que a imponência é o provável disfarce da impotência, nos dias
que não mais vês? Homens com menos paus e mais automóveis, veja
onde chegaram.}
E ao fundo, caro amigo, não se surpreenda: calabouços claustrofóbicos
que fingem ser casa. Palafitas suspensas no nada, onde habitam urubus
gentis, que cedem espaço para tantas crianças que nem sequer sei se
cabem.
Pois, amigo Giba, é com saudade do seu requinte que me despeço.
Gostaria de tê-lo aqui, experimentando o sabor da sua sabedoria, das
suas convicções. Você de certo me escreveria contando uma orgia com
os falsos dominadores de hoje. Pobres coitados que vivem em gaiolas
para se protegerem do desconhecido. Já quanto à senzala, de lá sei que
seria do seu agrado. O cheiro de merda continua, mas os que pisam, ah,
os que pisam, estes já não são mais como os que você conheceu.
Eles têm o perfume da breve liberdade que, agora arrisco eu uma
profecia, me perdoe a petulância: liberdade que será opressão ao revés.
Está chegando a hora da sua senzala tomar a casa grande.
Saudades de sempre.
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho.
Postado em 22/05/2007 - 12:07
Te conheço pela cinzitude, o ruço céu que não cansa de lacrimejar. E
admiro-te, confesso aqui em baixa voz. Mas hoje digo e me
compreendas: te odeio pela distância. Pelo que impuseste nestes sete
que parecem infinitos dias. Teu céu escuro não me deixa ver a minha
Lua. E não sabes quanta falta me faz.
As águas turvas de um rio que atravessa a cidade.
Postado em 21/05/2007 - 14:36
O rio passa sem ser notado.
Água turva não permite que vejamos o que há no fundo.
Deve ser esse o motivo do desprezo coletivo.
Vulcões de lava fria.
Postado em 21/05/2007 - 14:34
Conta difícil. Três cinzeiros depois, três assuntos diferentes, o silêncio
reina, absoluto, na sala vermelha, cor dos olhos cansados. E cada qual
finge pensar no outro, enquanto só vêm às cabeças a solidão do
pensamento exclusivo sobre si próprio.
{O cientista euforiza o emocional até ponto tal que o racional nasce,
vulcão de lava fria.}
A paisagem dorme. A cidade vai se desfazendo das luzes enquanto as
cabeças iluminam novos pensamentos. E se despedem, como idéias que
morrem repentinamente.