Um bom motivo.
Postado em 30/11/2006 - 10:24
O casal, então, pratica uma quase-entrevista com a quase-noiva. Qual a razão da tristeza, amiga? Por que falas assim sobre um momento de solidão que atravessas? E enfim, qual o real motivo de desejares, agora, um casamento com tanta urgência, tu que nem namorado tens, atualmente?
- É que tenho uma pulseira linda, que não consigo atacar sozinha.
E suspirou.
Discrepância.
Postado em 27/11/2006 - 17:14
Um crepe com copa.
O meu, com ricota e pêra.
Um aqui de camarões e geléia de damasco.
Por favor: um com ementhal e passas brancas.
E o meu, este aqui com frango e rúcula.
Ninguém concordou com os sabores dos crepes.
Como se fosse.
Postado em 24/11/2006 - 22:13
Como
Se contente fosse
Se de manso andasse
Se pra mim viesse
E em meus braços adormecesse
Em paz
Se
Fosse em uma praça
Andasse em um compasso
Viesse em estado de graça
E adormecesse em paz
Nos braços meus
Como se fosse
Como se andasse
Como se viesse
Assim
Sim
Simplesmente
Para mim
Teófilo.
Postado em 24/11/2006 - 21:48
Autoproclamara-se Guardião-carrasco das Entidades Bestiais em cerimônia solene realizada na sua sala de estar. Sozinho estava, sozinho fizera a celebração e asseverou o título ungindo a si próprio com sangue do polegar do sujo pé esquerdo. Perfurara a unha com uma agulha de tricô velha. Desvencilhou-se da indumentária negra de alguma seda barata rasgando de uma só vez do turbante aos elásticos dourados que prendiam as vestes no tornozelo. Bradou algumas palavras em latim tosco, bateu no peito e observou o sangue escorrer da sua unha ferida. Dali por diante, livre de todo o Mal, o mundo percorreria seu caminho em paz, livre das atrozes Entidades que agora faziam parte da sua lista de perseguição infindável.
Uma torta de chocolate amargo desceu em disparada pelo corrimão em direção ao grupo de anões albinos que faziam uma coreografia havaiana na borda da piscina de chá verde.
Acordei. Nossa, que sonhos estranhos estou tendo ultimamente.
Partiu.
Postado em 21/11/2006 - 18:02
O velho tirou o chapéu lentamente. É o que os velhos fazem quando estão prestes a ensinar. Um movimento lento, que defina a anti-pressa. A sabedoria é lenta, apressadinho, dizia-me com aquele gesto.
- Filho, o único drama da existência é o desamor. Homem algum tem conta de luz a pagar quando dorme no escurinho com a sua bela morena. Não conheço aquela que reclame dos muitos pratos sujos quando o amante chega em casa com um sorriso e um beijo pronto para ser ofertado. O desamor é cruel, entenda-me. Realça as sarjetas, enfeia paisagens, quebra dentes. Certa vez deparei-me com um vendedor de algodão doce que não sorria. Como se fosse permitido, veja só. Era desamor puro, abandono daquela que o fazia feliz. E é deste único drama da existência que falamos, não é mesmo? Quando me perguntas porque me contento com o que tenho, se te parece pouco. Não é isso? Pois se é, eis minha resposta. Meu contentamento é decisão perpétua, já que tudo tenho. E tudo, para mim, é um item só: ela. Se a tenho, que me importa se te parece pouco ou que para mim é tudo que preciso? Aqui estou, preste atenção, filho, debaixo deste sol que nos torra a pele, esperando há horas, quando sou abordado por tua dúvida. Dúvida engana, lembra Descartes? Não se deixe enganar. Finja que me ouviu, finja que minha resposta serve a ti também, finja que não há a tortura da espera e do calor. Mentira será apenas hoje, que chegarás em casa solitário e aí compreenderás. Amanhã, não. Serás um outro. Que, sem sofrer dessa ausência, falo do desamor, terás um sorriso e um beijo pronto a ser ofertado. O desamor é cruel, filho. Sei que sabes. Agora, preciso partir. Meu ônibus.
Partiu.
Ela e ela.
Postado em 21/11/2006 - 16:59
Faço o que ela quer, preta
Digo o que ela quer, preta
Tenho mais ciência, mais razão
É mais além que uma paixão
Pro lado que ela vai, eu vou
Pelo atalho que ela segue, eu vou
Tenho mais ciência, mais razão
É mais além que uma paixão
Se ela chora
Me desfaço
Se sorri
Eu me refaço