Faz de conta que hoje choveu.
Postado em 30/10/2006 - 16:54
Faz de conta que hoje choveu. E que a cada fungada que você dá, o cheiro de terra molhada invade os pulmões e subtrai alguns anos da sua existência. E anos correm para trás. Faz de conta que isso foi hoje e amanhã será outra vez. Em uma semana, você poderá correr sobre a grama fugindo do amigo imaginário que teima em passar as tardes em sua companhia. Faz de conta que em um mês a chuva cesse e você volte a envelhecer. Mas não crescer. Isso você já terá feito no mês passado.
O primeiro abraço.
Postado em 30/10/2006 - 16:10
Tinha sombras na memória. E nos trilhos que iam e vinham, transportando vagões vagos, o silêncio era ruído primeiro a se ouvir. Olvidar-se e esquivar-se foram irmãs etimológicas durante aqueles tempos. Seria sua última viagem, por certo. Iuri não desviara o olhar um segundo sequer da paisagem na janela, construindo uma história quadro a quadro de montanhas cobertas de gelo. Quisera que aquele fosse o frio maior. Mas não o era: o peito ardia. O que dizer? Como dizer? Qual o olhar certo para sua mãe? Não recordava se algum dia abraçara seu pai. Seria o primeiro abraço. Sim, seria o primeiro abraço nos últimos quarenta anos. Faíscas anunciaram o freio e a proximidade com o fim da linha. Era hora.
{Correu para abraçar os seus na estação. Mesmo os que do rosto não se lembrava naquele instante.}
Uma vírgula para um coração doído.
Postado em 27/10/2006 - 10:54
- Essa ausência, em si, apenas revela a falta do outro.
Disse-lhe eu. Creio ter visto um sorriso de amigo ao término da frase.
Onde antes era escuridão.
Postado em 25/10/2006 - 18:19
Queria que fosse diferente, mãe. Mas foi do jeito que o destino quis e quando ele quer, tem jeito para a gente não. Nasci Sol. E sei que no teu ventre, foi a água que me protegeu - e a ela devo minha chegada são ao mundo. E tenho maior respeito por aquela que mata a sede de quem eu castigo. Fosse por mal, eu diria. Mas não. Amor, para mim, é calor.
Diziam os mais velhos que na cidade onde ele nasceu só fazia escuridão. Um lugar sem sombras, sem suor na testa, sem óculos escuros - esse, só por causa de conjuntivite. Era terra de um antigo engenho, cuja família proprietária morreu na noite de Natal com um incêndio provocado pelo charuto do dono da casa grande. Mas dizem também que era gente ruim. E quando é assim, tem que ser morte trágica. Só quem morre de morte morrida mesmo, de alívio, é quem vive de bem com os seus. Mas era. Só escuridão na cidade, bem do lado de cá do rio, que servia de espelho para menina moça que queria ver as partes com uma vela iluminando o vestido. De longe, parecia candeeiro gigante na beira da água. Teve muito rapaz que achava que era monstro.
Deu-se que quando eu abri o olho, mãe, e me lembro direitinho de como foi, clareou-se foi tudo pela frente e foi menino correndo tapando os olhos, velha chorando ajoelhada com o terço na mão, casal se beijando para se despedir porque a hora tinha chegado. Mas era nada. Era eu, mãe. E por isso fui embora da sua casa e deixei seu peito. Porque o destino disse que ia ser desse jeito, e destino é fogo.
Do lado de lá do rio era uma terra verde, bonita que só vendo, diziam os velhos da calçada. Uns mentiam que já tinham atravessado e visto tudinho. Menino pequeno era que acreditava e sentava em roda na porta da casa para ouvir. Gente crescida acreditava nisso não. Diziam que desde seus tempos de criança era tudo tal qual se via hoje: o rio e uma escuridão mais clara do outro lado. Mas que era escuridão, isso era.
Sendo eu a decidir, decidia por outro. Ia mandar mãe dos outros parir o sol, mãe. Vida de iluminar vida dos outros é esforço medonho, que gente não faz juízo. Porque a gente mesma que se assustou quando eu cheguei, essa mesma gente agora só quer saber de mim, reclama da vida de antes e diz que eu é que fiz tudo diferente.
E bem na frente de todo mundo, na casa de muro baixo no fim da rua da praça da igreja da cidade da escuridão, nasceu um menino. E nasceu junto com o dia.
Agora eu tenho que ir, mãe. Que a senhora precisa descansar e dar a vez para o dia que eu levo.
Elefante.
Postado em 23/10/2006 - 18:43
Olhou para o horizonte e viu a tromba d'água que estava para cair.
Galo.
Postado em 23/10/2006 - 18:42
Ouviu tudo o que os amigos tinham a dizer sobre seu filho e teve raiva. Aquele frango me paga.