Ascender.
Postado em 31/08/2006 - 14:45
Malandro bom que era, deixou dois cigarros e beijou a testa da sua
preta doce. O lençol desarrumado revelava suas coxas nuas. Sorriu e
acendeu um. Fechou a porta do barraco suavemente, procurou e não viu
uma nuvem sequer no céu azul.
Dali até o trabalho seriam duas horas. Primeiro de trem. Depois,
provavelmente, numa kombi velha. Atravessou o córrego sobre a tábua
azulada e sorriu para a pequena na casa da frente. Recebeu um sorriso
de volta, escondido pelas abas da chupeta.
{Vai, que o tempo só corre quando a gente pára.}
Deu bom dia a todos, trocou de roupa e sentou sorridente no banco de
madeira. Sobe?
Sala dos espelhos.
Postado em 31/08/2006 - 10:36
Gecina passou a mão por baixo do vestido para ajeitar o tecido.
Espigou-se novamente e viu o resultado no espelho: multicolorida,
batom vermelho e olhos brilhando. Dia feliz, minha nossa senhora.
Aproximou-se para ver se não restava remela no canto do olho. Dormira
mal, verdade. Tensa, acordando de instante em instante, achando que já
fossem cinco horas. Mas nunca era. Até que dormiu profundamente por
meia hora. E aí veio o filho acordá-la com um beijo quente e molhado na
testa.
Agora lá ia ela. Vestido lindo. Batom novo.
{O espelho é instrumento feminino. Só elas o vêem como se deve. Não
é reflexo, pura e simplesmente. Sabem que é a imagem exata vista pelo
outro. E para isso se arrumam.}
Olhou as sandálias baixas. Passou o dedo na língua e limpou o bico,
empoeirado que estava. Ao abrir a porta do quarto, sentiu o silêncio no
interior da casa e estranhou. Filho, filha, outra filha maior com sua neta.
Onde estariam? Caminhou já sorridente. Ninguém. Nada.
Entrou na cozinha e a cena estava montada, como imaginara. Um bolo
escuro, uma vela branca. Todos ao redor. E cantaram juntos em sua
homenagem. Gecina sorriu e viu-se no reflexo dos espelhos ao seu
redor.
¿Te gusta?
Postado em 30/08/2006 - 15:09
O pasto
É vasto
O susto
É justo
O custo
É vasto
O gasto
É justo
A casta
A veste
A pista
A bosta
E basta
Deus usa cacetete?
Postado em 30/08/2006 - 10:27
Hoje, na capa de um jornal pernambucano, pessoas em passeata.
Limoeiro, pequena cidade do estado. Pedem pela volta de Laís, menina
de 9 anos, desaparecida.
O primeiro cartaz que se vê carrega o pedido: "Deus, traga Laís de
volta".
Deus? Não seria a polícia? Não seria a justiça?
Cá para vós.
Postado em 29/08/2006 - 19:19
Vejo o mar todos os dias.
Não pelo iodo, não pelo espelho azulado, não pelo barulho das ondas.
Mas pelo pescador, que nunca leva nada e sempre traz alguma coisa.
Dentro do que está dentro do que está dentro.
Postado em 29/08/2006 - 11:08
Dentro da sua avó, tinha sua mãe. Dentro dela, você. E dentro de você,
haverá aquela que terá dentro de si a que contará essa história para as
netas da sua neta.